sábado, 1 de novembro de 2008

Dilema Futebolístico

Eu tenho dois times. O Azulão e a Lusa. A Lusa foi uma ternura inesperada que me percebi sentindo desde que meu pai morreu. E concomitantemente também fui perdendo minha ojeriza pelas coisas portuguesas. Salvo "el bigodon" portuga que meus ancestrais me deixaram, aiai. O Azulão foi de acompanhar o Paulista de 2004, ver matérias sobre ele, principalmente sobre os bengalas azuis. Tanto é que fui ver a final de perto.
É muito fácil ter um time próprio para alguém que nasceu num ambiente em que torcer para algum time é uma coisa muito natural e já esperada por todos. Para mim, apesar do meu pai ter sido um torcedor fanático, futebol era algo do universo masculino adulto. Futebol era para o meu pai e para os amigos dele, não era para o meu bico. E eu também nem fazia questão porque afinal eram tantas coisas que eu tinha que me submeter por causa do patriarcado autoritário e machista que ele impunha, que não gostar de futebol era até um ato de rebeldia ou de auto afirmação. Estava no pacote de não gostar de tremoço, de bacalhau, de fado, do Roberto Leal, de Portugal, de conscientemente não conhecer o parentada das Oropa.
Daí meu pai foi-se. E eu que tinha feito as pazes com ele e com tudo o que lhe dizia respeito, vi perder o sentido a minha lusofobia. Foi então que a Lusa despontou.
Quando cheguei no canal de esportes mergulhei num mundo inteiramente novo para mim. Foi um mergulho de apnéia e eu acredito até que bati vários recordes de resistência e auto-superação. Pensei várias vezes que não ia sobreviver, mas consegui. Agora não faço feio em rodinhas onde o papo futebolístico impera, apesar de vez ou outra ter que defrontar ainda um despeito masculino. Mas não é merito só meu, é de tantas outras que vem quebrando estes limites. Não é por acaso que temos uma Soninha debatendo sobre futebol, e uma 6º elementa no Rock Gol. E cada vez mais se pode ver umas carinhas femininas nas arquibancadas, e elas nem parecem estar acorrentadas e terem sido forçadas por seus pais e namorados para estarem ali.
Com o contato cotidiano com este ambiente fui me acostumando, aprendendo e gostando. E minha tendência simpática aos desesperados e oprimidos se manifestando numa torcida velada pelos times pequenos. Foi aí que o São Caetano despontou.
Tem por aí ums monogâmicos de plantão que se horrorizam. E vem com aquele argumento chato e clichê de que gostar de mais de um time é falta de opinião. Time tem que se ter um só e para todo o sempre. Por que não se ter dois? Por que não se ter um, se desgostar e mudar para outro, como no divórcio? Para mim esse tipo de coisa soa quase como um moralismo. Bem, de qualquer forma as coisas no futebol andam meio retrógradas mesmo, a cartolagem ainda impera impune, o Estatuto do Torcedor com quem cumprindo quem quer, contratos de compra e venda sem acompanhamento do Banco Central...
O único empecilho de gozar plenamente os dois amores: quando os dois entram em campo...

6 comentários:

ZECA disse...

Houve um período em que eu achava que o futebol fosse coisa de alienado, uma subcultura, e uma monocultura esportiva. Tava pouco me lixando se o Brasil sagrasse campeão do mundo ou não. Mas agora consigo ver que esse esporte representa parte dos valores do brasileiro - sem ele perde-se o orgulho, a identidade. Seguindo a antropofagia de Oswald de Andrade: o brasileiro deglutiu, sorveu algo que os ingleses produziram. Pode-se dizer que o melhoramos e que botamos poesia nele.

Bem-vinda à blogosfera, Crisim!!

disse...

testandooooo

disse...

Olá Cris,
Já botei seu blog na minha lista de favoritos. Vez em quando vou dar uma sapeada nesse seu confissionário virtual pra ver se pesco alguma revelação inesperada. Essa da paixão pela Lusa eu já sabia. Ao confessar suas infidelidades, só faltou você botar o Zé na roda e falar que agora ele dança o vira lá na torcida da Lusa. Deixa o fiel torcida corintiana saber disso!!!

Bruna disse...

eu tb não vejo graça na monogamia futebolística. é verdade que meus dois times convivem com mais harmonia por serem de cidades diferentes (Paysandu Sport Club em Belém do Pará e SPFC em Sampa), mas tb é verdade que o SPFC senta no sofá da sala do meu coração, enquanto o Paysandu forra as paredes, deita na cama, mora sem ser visita. (rs) bem-vinda!!

Janaína disse...

Vez em quando aparece alguém e me pergunta:
_ Palmeiras? Mas você não é de Minas? Por que não torce pro Galo ou pro cruzeiro?
Então, vamos lá: Já vou esclarecendo que MG não tem só o Galo e o Cruzeiro. Mas,nenhum deles despertou meu interesse. Aliás, minha paixão futebolística apareceu tardiamente... quando não me importava mais com os comentários machistas dos amigos nem com a opinião das amigas sobre futebol ser uma idiotice onde 22 homens correm atrás de uma bolinha!
Na República cada uma tinha seu time e não havia diversãomaior do que ver o Verdão massacrando ou, por que não, me esconder pra não ouvir a zoação das colegas depois de uma derrota.
Futebol também é coisa de mulher. E talvez seja coisa de mulher torcer pra um e olhar com olhos de ressaca para outro. Não é o meu caso. Torço para que o SPFC não apanhe muito por interesse, já que o marido é um tanto fanático e fica com gosto de chuchu quando o time perde, então... seguuuura Rogério Ceni!

crisim disse...

Torcer é uma coisa muito interessante antropológicamente falando. Como antes era só torcedora de ocasião, de seleção brasileira, e depois fui vendo a coisa tomar corpo em mim (hehehe, seria um alien?), pude conjecturar bastante sobre isso e perceber como não tem explicação muito racional todas as vezes. É puramente emocional mesmo. Tem lá uns vínculos com os entes queridos, com um jogo ou situação que marcou muito. Vejam o exemplo do meu Zé. Ele nasceu corinthiano. Por que cargas d'água foi amarrar seu bodezinho na torcida tão pequenininha da Lusa? Realmente, uma experiência lusitana muito marcante fez ele mudar... Né não, Zezim?
Zédabem, ele dança o vira sim e se orgulha, viu? E se eu fosse você vinha mais para o Parque Antártica com a Janaína. Só não me convidem, porque depois da minha torcida pra Lusa, a graça para mim é exercer o meu anti-palmeirismo.
Bru-bru, vamos montar uma entidade contra a monogamia futebolística? Isso é coisa de torcedor inseguro. Tudo na vida se vai, os amores principalmente, hehehe...

Crisim