quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A filha pródiga - Revival da Crisim com a Mãe-USP



O universo conspirou a meu favor e me garantiu dois dias longe da minha senzala em prol de uma causa prática. Simplificando: fui fazer um curso para arquivistas. Algo que não vou esmiuçar por ser muito específico e chato para os não entendidos.
O curso em questão foi no prédio da História, na USP, e falar em "universo conspirando" não é gratuito. Apesar do meu agnosticismo convicto, tudo me pareceu meio cíclico e místico desde que coloquei meus pés por lá hoje de manhã. Saí da História há 13 anos deixando para trás a minha vida de estudante para decidir ser uma outra Cris que nem sabia o que viria a ser. Voltei hoje, não tão certa do que sou, mas com alguns rótulos prontos para me identificar no mundo.
Subi a rampa em direção às salas com um nó na garganta, o primeiro de vários que iria ter ao longo do dia. Ir e vir nos corredores, no pátio, no Espaço Aquário, na lanchonete, no banheiro e por aí vai, ligou em mim uma espécie de "piloto automático". Uma familiaridade e uma nostalgia foram tomando conta. Quantas vezes eu não havia feito estes mesmos trajetos sem que tivessem nenhum significado? Agora tudo parecia tão cheio de sentido, me remetiam a tantas coisas que vivenciei... Por exemplo, senti sede e quis beber água. Meus instintos me levaram ao local certo do bebedouro sem eu nem ao menos perceber isso. E zanzando pela FFLCH me dei conta que trilhei os mesmos caminhos que fazia antes, fugi dos mesmos pequenos obstáculos que já conhecia.
Ao longo dessa redescoberta fui me empolgando em querer reviver outras coisas que eram tão comuns e sacais no meu tempo de universitária, mas que agora pareciam fazer uma falta tremenda. Pra começar, tentei "bandejar". Nunca que iria imaginar que pudesse sentir saudades do Bandejão Central. Aquela comidinha com salitre que dava uma sensação de empazinamento, aquela acelga odiosa, aquele leite esquisito entre uma garfada e outra, quem diria, eram agora muito convidativos. Qual nada, o funcionário me informou que os não-estudantes têm que ter uma autorização para garfar por lá! Coisas do COSEAS, famigerado COSEAS!!! Vamos invadir o bandeijão! Alguém lembra desta investida revolucíonária?!
Tive que me contentar com a antiga lanchonete do Português, que diga-se de passagem, serviria bem como revival gastronômico. Por lá curei rápido minha frustração de "sem-bandeijão" ao orelhar uma conversa alheia bem uspiana. Ouvi as palavras "propedêutica" e "epistemológico". Quase tive um orgasmo mental na hora em que estava engolindo meu almoço. "Propedêutica" nem era tão orgiástica, mas "epistemológico"pegou fundo. Foi uma das primeiras palavras que tive que tentar entender quando era caloura... Se os caras conversando na mesa ao lado tivessem intenção de me passar uma cantada com certeza teriam me conquistado facinho. Era só sussurrar no meu ouvido "epistemolóóógico", hehehe...
Na hora de escovar os dentes, outro momento muito familiar: eis que entra uma garota correndo e vai vomitar. Fiquei tão fascinada de rever esta cena escatológica que até fui mal educada e esqueci de perguntar se ela precisava de ajuda. Quantas vezes vi gente no banheiro vomitando em dia de festa! Ainda mais nas famosas festas da História, com tanta cerveja rolando...
Ao mesmo tempo foi me pintando uma estranheza. Algumas coisas pareciam fora do lugar. Claro, o espaço que era quase uma extensão da minha própria casa agora não era mais o mesmo. E pior, não era mais meu. Não fazia mais parte da minha vida. Então junto com minhas percepções de reconhecimento do que parecia ser "o mesmo" fui reparando também no que "não era mais". E me dar conta disso foi bem doloroso. O que me reconfortou foi ver algumas coisas "no lugar", como o xerox do Seu Luis lá no Espaço Aquário. Ele existia antes da minha chegada em 1990 e ainda existe para todo o sempre. Curiosamente, o filho do Seu Luis é a cópia do próprio Seu Luis! Aumentando meu alívio, reparei num grupinho no Morro dos Delírios sentado em círculo, fazendo algo que nem preciso dizer o que, como era de se esperar. Indabem!
Por fim, me senti totalmente reconfortada quando encontrei firmes e fortes no reduto alguns antigos amigos. Estava preparada psicologicamente para o que seria mais doído na minha ida à História: não encontrar ninguém. Por ser tão inesperado foi o ápice das emoções deste pequeno-grande dia. Fiquei feliz no final das contas em constatar que apesar do espaço não fazer mais parte da minha vivência, pessoas que conheço e que ainda o frequentam me parecem um pouco representantes de mim, como que dizendo "A Cris não está aqui, mas estou por ela".

5 comentários:

Fe disse...

Cris, é isso mesmo! Um espaço que parecia ser tão nosso...tão igual e tão diferente...ontologicamente ubiquo...rsrsrsrs

claudia cora disse...

lindo, cris!
tive essa sensação quando tive que andar pelo corredor do crusp recentemente. não estou lá, mas tem outra claudia, cris, sol, mia, bozo etc...

Renata disse...

Não faço parter dos uspianos saudosos, mas ousei ler o seu texto."Fui" mentalmente para a PUC e me vi totalmente fora daquele lugar. Beijos,o passado as vezes é algo tão de outra pessoa!

Bruna disse...

Crisim, já senti essa nostalgia por lá, mas acho que minha história na USP foi menos romântica q a tua. sempre me senti meio por fora do clima, lá...

Bia disse...

Cris!
Devo ter cruzado com vc sem saber, mulher! Só me bateu uma melancolia de saber que um dia isso vai acontecer comigo também... lindo! Bjo.