domingo, 1 de fevereiro de 2009

Livro livre


Tenho perdida na minha memória uma conversa com um amigo sobre livros. Ele precisava ler o livro "A Era dos Extremos" do Hobsbawn para o mestrado e ia pedir emprestado. Até aí tudo bem. Descobri que ele tomava emprestado todos os livros que queria ler, comprava muito pouco. Não que não tivesse condições de tê-los ou que fosse sovina, era um posicionamento próprio. Fiquei surpresa com as idéias dele justamente porque me vi seguindo uma premissa totalmente contrária. Sou muito apegada aos meus livros, ponho nome na página de rosto, sei a posição deles na estante, quando empresto é com muito receio e quase chorando e agitando o lencinho na despedida. Nunca mais esqueci a frase que ele me disse "ter o livro com você não garante que você tenha o conteúdo para si". Segundo ele, a não ser que eu vá revisitar o livro várias vezes, tê-lo comigo guardado é totalmente inútil. O livro existe para ser lido e ponto final.


Trabalhei em biblioteca, fui convivendo com livros "públicos" por assim dizer e constatando como é importante este tipo de pensamento. Depois por conta própria inventei uma bibliotequinha no serviço com um sistema de empréstimos bem simples. Usei meus próprios livros neste acervo. Penso que desta forma ajudo os demais a lerem mais, mas no final das contas estou ajudando a mim mesma a praticar o autodesprendimento e por em prática a idéia do livro livre.


Quando já estava bem sossegada e achando que já tinha contribuído o suficiente para um mundo mais leitor e uma Cris menos possessiva e egoísta, eis que surge uma novidade embasbacante. Estive na Casa das Rosas no aniversário de Sampa como já havia contado no texto anterior. Por lá estavam distribuindo livros de um movimento chamado "bookcrossing". Na capa dos livros estava escrito "Não estou perdido... Sou um livro livre!". E no interior um texto que me emocionou de tão fundo que pegou em mim: "Sou um livro muito especial. Viajo ao redor do mundo em busca de novos leitores. Espero ter encontrado mais um em você. Por favor, vá até www.bookcrossing.com, entre com o número BCID abaixo e deixe uma breve nota. Descobrirá onde estive, quem me registrou e meus leitores anteriores saberão que estou seguro em suas mãos. Depois ajude-me a realizar um sonho: leia-me e liberte-me!"


A proposta é muito simples. O livro é colocado em lugares públicos para um curioso e leitor em potencial descobrí-lo. Cada livro tem um registro no site e espera-se que os leitores que o acharam dêem satisfação dele no momento em que tomaram posse ou quando vão deixá-lo para o próximo felizardo. Quem quiser ir mais fundo nesta filosofia pode inscrever-se como membro e botar livros para circular. O site dá todo o suporte para você realizar a façanha, desde uma espécie de estante virtual dos seus livros libertados até modelos de etiquetas e cartazes de divulgação.


Nem preciso dizer que fiquei viajando na idéia: o mundo virar uma grande biblioteca! E melhor, o livro é que te acha e não você! Mais ainda: a experiência de compartilhar. Não é emocionante? Ah, eu precisava fazer parte disso! Já me tornei membro e comecei a escolher alguns filhos de papel para entregar para o mundo. É um processo doloroso para a mãezona aqui, mas totalmente transcendente. Quando atingir o nirvana eu aviso, tá?


O evento bookcrossing na Casa das Rosas foi registrado em documentário:



O bookcrossing no mundo:


Em Portugal



Na França:



Na Grécia:



Na Alemanha:

2 comentários:

Bruna disse...

ooooh, eu não sei se seria capaz... sou tão materialista! lembro sempre de uma frase do Caetano que diz "os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil". Os livros de que gosto muito, preciso ter...

crisim disse...

Estou me desfazendo daqueles que nem são tão queridos, a dor é menor. Os muito queridos ficam.
Quem sabe o fato de poder segui-los pelo site valha tanto a pena que me entusiasme mais e seja mais ousada.